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Da série: deve ser amor.

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Um pacote de pipocas que dizem ser doces e crocantes, mas que, de todas as 50 pipocas do pacote, só uma é realmente doce e crocante.

Um dia de muita chuva na praia.

Aí o passatempo vira comer todas as pipocas do pacote, até encontrar a única pipoca doce e crocante, para dividi-la em dois.

E fazer isso sem cansar, em dez pacotes de pipoca “doce”.

Deve ser.

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O velho índio e a criança de amanhã

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* Conto que escrevi para o site da Escola Viva, baseado na palestra de Marcos Ferreira Santos – Maturidade: Da fruta à semente. Para começar o ano refletindo.

 

– Pergunte ao seu avô qual era o maior sonho dele quando jovem, minha criança. E preste muita atenção na resposta que ele vai lhe dar.

– Por que diz isso, velho índio?

– Porque tenho certeza que ele vai responder que, quando era jovem, o seu maior sonho era colocar uma mochila nas costas e o pé na estrada, para descobrir o mundo.

– Ah… Mas que sonho estranho, velho índio! Por que eu deixaria pra trás o conforto que tenho em casa, a comida na mesa, a roupa lavada, a internet sem limites…?

– Minha criança, botar o pé na estrada é fazer um caminho diferente, criar alternativas, experimentar novas possibilidades, conhecer o que a vida nos traz e poder expressar as nossas ideias da forma que acreditamos. Isso tudo é muito bom para construirmos quem somos. O mundo não é só esse lugar que você conhece, ele é grande, muito maior do que você imagina.

– Mas os meus pais não fizeram isso. Eles ficaram aqui e, desde cedo, trabalharam muito para construir uma carreira bem sucedida, formar uma família e dar a ela tudo do bom e do melhor.

– Os seus pais foram habituados com o trabalho do ponto de vista medieval e sempre o compararam com tortura e sobrecarga (a própria palavra trabalho vem do latim tripalium, que era um instrumento de tortura medieval).

Eles passam dez, às vezes onze, horas por dia em trabalhos que não gostam e nos quais não veem sentido nenhum. Vendem a sua mão de obra para um sistema que visa ao lucro e à produtividade. No fim do dia, ao “baterem” o ponto, vão para casa cansados e infelizes, dormem pouco e no outro dia acordam para trabalhar e começar todo o ciclo de suas rotinas novamente, sem nem perceberem que a vida está passando. No fim do mês ganham um salário que paga as suas contas, mas que nunca é o suficiente.

– Ué, e não é assim que vocês fazem aqui?

– De forma alguma. Aqui em nossa cultura, o trabalho é algo presente, uma dádiva. Fazemos quase como uma brincadeira, um experimento. Acontece do modo como nós queremos e nas nossas condições. Quando cansamos, voltamos para as nossas casas, comemos, bebemos, descansamos, contamos histórias e, só depois, voltamos a trabalhar.

Isso acontece porque aqui não temos muros nem paredes, as pessoas são livres. Crianças e adultos estão juntos em suas atividades. Não há um regime de privação da liberdade e tampouco de autoridade, nem na escola, nem no trabalho, principalmente, porque não existem as paredes que estão dentro de nós, aquelas mais difíceis de serem derrubadas. Como no trabalho para os adultos, para vocês, crianças, o brincar também é algo a ser experimentado, vivido intensamente, e que deve terminar no tempo da brincadeira e não no tempo do relógio.

– Mas eu não posso ficar só brincando. Não seria melhor eu já ir me preparando para quando eu for para o ensino médio e depois para a faculdade e tiver que trabalhar? Se eu ficar brincando, não vou estar, de certa forma, perdendo o meu tempo?

– Não, meu filho… Não se entregue a esse sistema maluco em que vivemos nos dias de hoje. Você precisa viver, brincar, experimentar, criar. Dessa forma você vai aprender muito mais sobre a vida e sobre você mesmo.

Outra coisa importante é o que fazemos com os recursos que utilizamos, tanto para as brincadeiras quanto para o trabalho. Vocês têm a mania de guardar, acumular, há uma dificuldade enorme de desapego, enquanto nós devolvemos para a natureza tudo o que a ela pertence e que nós já não precisamos mais. Vocês esquecem que as coisas mais importantes nós não guardamos em caixas, não cabem em armários, ficam dentro de nós. Quando a brincadeira termina, quando o trabalho termina, o que fica de mais precioso estará guardado para sempre em nossa lembrança.

– Mas será que no futuro, quando eu olhar para trás, para o passado, não vou me arrepender?

– O passado não é olhar para trás. O passado é tudo aquilo o que está a nossa frente, tudo o que aprendemos, acumulamos e construímos ao longo de nossas vidas. O presente é uma dádiva, é o que estamos vivendo aqui e agora. O futuro, esta palavrinha que vocês inventaram, significa algo que está por vir. Ainda não sabemos o que é exatamente, nem o que pode acontecer amanhã, portanto não temos que nos preocupar tanto com ele quanto devemos nos preocupar com o que estamos vivendo agora. O importante é pensar: o que eu estou fazendo com a pessoa que eu sou hoje?

– Poxa, nunca tinha pensado nisso…

– Portanto, minha criança, viva o presente, brinque, experimente, arrisque, sonhe, conheça. Lembre que não somos nada sem a comunidade em que vivemos e de nada nos serve o conhecimento se ele não for compartilhado. A nossa escola, por exemplo, é uma comunidade. Nela podemos compartilhar descobertas e construir a nossa pessoa, ao nosso ritmo, em nosso tempo. Porque as crianças já são pessoas, desde o momento em que nascem. Elas não devem pensar no que serão e sim no que já são.

Se eu pudesse dar um conselho de um velho índio (ou um índio cheio de juventude acumulada) para uma criança da cidade grande, este seria ele: pergunte ao seu avô qual era o seu maior sonho.

 

 

 

Daquele tempo que passei contigo

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Sabe, eu queria comemorar esse momento com você por perto. Eu estava fazendo 30 anos. Nos meus 15 você estava lá, no mesmo lugar, junto comigo. Nos 10 também, nos 5, no primeiro de todos.

Eu me lembro do último. Você fez questão de me dar o vestido e dizer que foi você quem escolheu. Toda vez era assim: ela comprava, mas era você quem queria entregar nas minhas mãos, fazendo a eterna piada de que tinha escolhido com carinho. Mas dessa vez foi diferente, foi você quem escolheu mesmo! E como era lindo.

Depois nós fomos na padaria juntos comprar pão para a festa, a fila era imensa e nós conversamos um monte. Pra variar você quis ir embora cedo e eu fiquei insistindo pra ficarem, mas sabia da longa viagem que tinha pela frente. E que enfrentavam com amor em cada aniversário de cada um de nós.

Sabe, eu queria que você estivesse lá com a gente, por isso fiz questão de comemorar naquele que é o nosso lugar. Que é o seu lugar, o lugar que você cuidou com tanto carinho só para nos receber, todo final de semana, durante tantos e tantos anos incríveis.

Eu queria que você participasse porque eu sei o quanto você amava festas, encontros, comemorações, convescotes e afins. Igualzinho a mim. E eu fiz questão de que todos estivessem ali, naquele nosso lugar, porque eu sei como você ficaria feliz de nos ver juntos nessa festa. Com altos e baixos, idas e vindas, mas juntos, unidos, amados, família. Porque era assim que você gostava.

Eu tenho certeza que a vovó entendeu, mesmo não podendo participar, afinal, são oito aniversários que ela tem minha atenção exclusiva, sem você. E ela sabe que você estaria ali com a gente – como eu sei também – e por isso ficou tranquila.

E você esteve. Em cada mesinha decorada, em cada galho do flamboyant florido, em cada mergulho na piscina, em cada cervejinha que você gostava (e como! passou o bom gosto pra família toda!), em cada sorriso, em cada abraço, em cada raio de sol, em cada acorde da viola, em cada estrela no céu. Eu te senti tantas vezes naquele dia… Até na chuva que me fez chorar, eu sei que você estava lá. E talvez fosse você, chorando de alegria em ver aquele encontro tão bonito e a casa tão movimentada.

Quando o dia amanheceu, eu te agradeci um milhão de vezes, pelo céu aberto e o sol escaldante. Me lembrei das tantas vezes em que você acordava, me via fritando na piscina e falava: “Ô vida difícil! Tempinho ruim esse de Indaiatuba!” Aí falei para a minha mãe: “Tá vendo, mãe? Foi o vovô quem me deu esse dia lindo de presente! Ele tá ali naquela única nuvem, sentado com São Pedro, tomando uma cervejinha e participando da festa.” Ela respondeu: “Será que ele conhece São Pedro?”, e eu: “Tenho certeza que sim, influente do jeito que era!”

Acho que você se animou tanto na minha festa e na conversa com São Pedro, que fizeram chover pra me abençoar ainda mais. Nessa hora eu corri no seu quarto pra conversar com você, só nós dois. E ai a chuva passou e a festa continuou linda até o dia seguinte.

Sabe, foi tudo do jeitinho que eu queria: com você por perto, quase todas as pessoas que eu mais amo nessa vida celebrando a vida juntas, comida boa, música, sol, chuva, amor, amor, amor. Como você nos ensinou.

E tudo isso no lugar mais importante de todas as nossas vidas. Ou pelo menos de dez vidinhas que estão aqui nesse mundo por sua causa. Dez crianças que cresceram, mas que continuam crianças quando chegam ali. E se lembram do seu tempo antigo, do tempo que passaram contigo, do tempo que não volta mais.

Volta sim. Volta cada vez que a gente entra ali. Em cada história que a gente conta que viveu. Em cada foto que tem uma cor diferente, cor de Itaici. Em cada uma daquelas frases emblemáticas que a gente aprendeu com você e que vive repetindo. Em cada trapalhada que cada um dos seus dez netos gosta de imitar e que eram só suas. Em cada jogo do Timão, sofrido (daqueles que você se trancava no quarto até acabar) ou não. Em cada abraço que damos na vovó.

Você gostava muito de viver, vô. Isso é algo que aprendi com você. Por isso quis celebrar a vida daquele jeito, naquele lugar, com aquelas pessoas. Eu gosto tanto de viver que às vezes me atrapalho e exagero um pouco, como você.

Na última semana eu fiz 30 anos, e comecei a olhar um pouco mais a minha volta, prestar mais atenção nas coisas, buscar a tão famosa paz interior, ter mais calma em querer abraçar o mundo e mais um pouco, como sempre fiz. Mas nunca, de forma alguma, vou perder a minha fome de viver. Como você fez, até o último segundo.

Sabe, desde que você se foi, não teve um dia sequer que eu não pensei em você. Que eu não lembrei de algum momento nosso, que eu não quis te contar alguma coisa que aconteceu na minha vida. Quando passei por um sofrimento daqueles bem doídos pensei: “ele ia odiar ver isso”, como no dia em que você se desesperou em saber que eu havia queimado o meu rosto com a panela de pressão. Quando eu conquistei um sonho profissional pensei: “ele estaria orgulhoso em me ver aqui”, como daquela vez em que me convidou para trabalhar com você.

Sempre que eu chego em Itaici e entro no seu quarto, eu converso com você. Longas conversas, altos papos. Espero que eu tenha te dito em vida, tudo o que eu queria te dizer. E que se eu não disse, nem em palavras nem em gestos, espero que você me escute ainda hoje.

Que você, mesmo com todos os defeitos que qualquer ser humano têm, foi o melhor avô que alguém pode ter tido, daqueles clichês que a gente pensa que só existem em filme: que nos deixa aprontar tudo que a mãe e a vó não deixam; que nos leva para passear nos lugares mais legais; que nos compra várias caixas do melhor picolé da praia; que nos dá refrigerante pra beber escondido da minha mãe (e mais tarde vinho, cerveja…); que nos faz rir pelo simples fato de todo dia na hora de dar boa noite, fingir que bateu o nariz na porta (quando na verdade, anos mais tarde, descobrimos que era com o pé que você batia); que joga bola e buraco de igual pra igual, sem admitir perder; que faz guerra de miolo de pão na mesa e que nos conta histórias divertidíssimas sobre como a nossa mãe nos comprou no zoológico.

Elefante querido, obrigada por nos ensinar o real significado das palavras: família e amor. É por você que ainda estamos nessa. E por você que eu tive a calma e a tranquilidade de voltar a escrever por aqui, depois de quase um ano sem tempo nenhum para algumas das coisas mais importantes da vida. Coisas que eu tentei reunir no meu último aniversário em que você esteve presente: o da semana passada.

Socorro

Como é que pode a música ser tão intensa e transformadora na vida de uma pessoa? Existem músicas que embalam romances, amizades, viagens. Músicas que embalam bebês, nos colos quentinhos das suas mães. Músicas que marcam épocas, que fazem chorar até cansar, que não deixam ninguém ficar parado.

Com eles não foi diferente. Claro, nem poderia ser, em se tratando de duas pessoas tão vidradas e envolvidas pela música desde que se conhecem por gente. Foi a música, aliás, que os levou até o mesmo lugar, onde se encontraram pela primeira vez. A música e uma vontade imensa de mudança existente dentro de cada um deles por um motivo diferente. Vontade de se perder pra se encontrar, vontade de ficar totalmente desprendido de qualquer rótulo ou clichê, para assim conhecer a si mesmo de um modo que nunca tiveram a oportunidade de fazer. Vontade de se soltar, se amar,  se deixar levar.

E nessa busca de um encontro por si próprio, acabaram encontrando um ao outro. Assim, sem querer, despretensiosamente, pra se falarem pela primeira vez sobre – adivinhem o que? Música. Alguma coisa sobre um show do Alceu Valença que ia rolar naquela semana ou sobre como a Céu era uma cantora incrível. Uma conversa que não passou muito disso. Só isso, nada mais.

Até que um dia ela pediu socorro. Não pra ele, nem especificamente pra ninguém, mas pediu socorro. Socorro por haver um tempo em que já não sentia nada. Nem amor, nem dor, nem vontade de chorar, nem de rir. E ela fez o pedido em forma de música, claro. Uma música que ela jamais imaginava que alguém poderia ouvir. E muito menos que alguém pudesse entender.

Mas ele ouviu. E entendeu. Cada palavra. Cada nota. Cada sentimento. E resolveu atender ao pedido de socorro. Do jeito dele: meio torto, meio ogro, meio louco. Sem saber muito bem o que estava fazendo. Mas atendeu. E foi a melhor coisa que ele poderia ter feito. Por ele e por ela.

Porque ao socorrê-la dessa sensação de nada sentir e de nada ter sentido, ele descobriu que, como ela, também precisava ser socorrido. Socorrido, entre outras coisas, de si mesmo. Porque, com ela, ele podia ser tudo, sem precisar de escudo. Podia gostar, sem afastar. Sorrir, sem precisar mentir. Que podia ser tudo o que mais fingia não ser, sem medo de perder. Que podia dar e receber.

E foi aí que tudo começou. Com uma música e um pedido de socorro.

E uma amizade tão grande, mas tão grande, que já era amor mesmo sem eles saberem que era.

De qualquer jeito, mesmo que tentassem fugir mais uma vez, achando que assim podiam se encontrar.

Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada. Já era amor.

 

Quando eu te conheci

blog

Quando eu te conheci eu escrevi um texto sobre o que era a felicidade. Sobre o que era a felicidade. A felicidade.

Não que eu não soubesse o que era a felicidade, nem que eu agora já saiba exatamente o que ela é. Nem que eu nunca tivesse me sentido feliz antes, mas o que realmente importa é que você me fez querer escrever sobre a felicidade.

Colocar ela pra fora, estampa-la pro mundo por meio do que eu escrevia. Você me fez querer escrever. Como você me fez querer tantas outras coisas que eu nem sabia que eu queria antes. Ou que eu sabia mas que não me deixava querer. Me fez querer sonhar um sonho meu, só meu, de mais ninguém, como eu nunca tinha feito antes. E me fez acreditar que eu podia. Daí depois disso vieram muitos outros quereres que eu guardava aqui dentro de mim e que você me fez querer pra fora.

Quando eu te conheci eu escrevi um texto sobre a felicidade. Não sobre o que era a felicidade pra todo mundo, mas sobre o que era a felicidade pra mim, naquele exato momento em que eu estava sentindo. Felicidade sem motivo, felicidade sem nome definido, felicidade até em silêncio.

Eu sei que ainda tenho um monte de coisas pra querer e muito o que aprender e eu sei que ainda falta muito pra eu dar o foco certo nas coisas que realmente são minhas. Mas o começo você já fez. Me ensinou a querer. Alguma coisa, qualquer coisa, por mais bagunçadas que essas coisas ainda sejam aqui dentro de mim. Por mais confusões que a minha cabeça ainda tenha todos os dias, de uma coisa eu sei: você foi a melhor de todas essas bagunças e a que mais arrumou o meu coração bagunçado.

Naquela época eu estava feliz porque a gente falava sobre a vida e as coisas que ainda queríamos fazer. Hoje eu sou feliz porque nós já fizemos milhares dessas coisas e ainda sim temos tantas e tantas coisas que ainda queremos ou que nem sabemos que ainda vamos querer um dia.

Quando eu te conheci eu escrevi um texto sobre a felicidade. A felicidade que eu sentia quando te conheci. O mesmo tanto de felicidade que eu sinto hoje quando te olho sem perceber, quando você pinta o mundo com as suas cores ou quando você entra pela porta de casa. O mesmo tanto de felicidade. Hoje e aquele dia.

A felicidade que me fez querer tantas coisas e que me ensinou a nunca desistir, mesmo podendo não dar em nada, eu pelo menos tinha tentado. E não é que deu em um monte de coisa? Então só me ensina a continuar querendo sempre. Aqui dentro e lá fora. Cada vez mais. Não quero nunca desaprender o que você me ensinou tão bem.

Quando eu te conheci escrevi um texto sobre felicidade. A felicidade que eu quero fazer você sentir todos os dias. Frios ou quentes. Fáceis ou difíceis. Longos ou curtos. Calmos ou agitados. A felicidade.

 

Arte: Bfrema

Mais ou menos três anos (ou oito meses!)

Há exatos três anos eu começava a escrever naquilo que se tornaria o meu blog. Ou nisso.

E há mais ou menos três anos (um pouco mais) eu começava a sentir muita coisa que eu nunca imaginei que sentiria desse jeito na vida. Muita coisa boa. Muita coisa melhor do que boa. Muita coisa.

Eu nem sabia que já fazia mais ou menos três anos, porque o tempo passa tão naturalmente que eu esqueço de contar, daquele jeito que todo mundo faz. Pra mim faz sempre oito meses. Pra gente faz sempre oito meses.

Mas hoje, relendo os textos do meu blog, desde o primeiro, eu descobri que faz mais ou menos três anos. Mais ou menos três anos que depois de trancar a porta do meu coração com cadeado e jogar a chave fora, eu me joguei de cabeça sem pensar nas consequências e entrei nas ondas de um mar que eu nem sabia onde ia dar. Mais ou menos três anos que eu passei a ser mais eu do que eu nunca tinha sido em toda a minha vida. Um pouco mais de três anos que minha vida ganhou muito mais música e muito mais cor. As nossas duas coisas preferidas no mundo.

Mais ou menos três anos que eu ganhei mais coragem, mais paz, mais sorriso, mais desenhos, mais aventura. Que eu descobri o que é cuidar e ser cuidado. Que eu aprendi a pensar no que eu quero pra mim e dar mais valor pra cada um dos meus sonhos, por menores que fossem, Mesmo pros que pareciam impossíveis. Que eu descobri o que é ser um par.

E em três anos o blog teve eu, teve você, teve mãe, teve pai, teve irmão, teve cachorro, teve amigo. Em três anos o blog teve vida, teve morte, teve partida, teve chegada. Em três anos o blog teve dor, teve amor, teve som, teve cor, teve saudade. Igual à vida.

Então eu queria agradecer a você. O responsável por insistir tanto e tanto pra que eu fizesse esse blog até que ele realmente virasse um blog. A primeira pessoa pra quem eu mostrei um texto meu. A primeira pessoa pra quem eu me senti à vontade de verdade pra fazer isso. Quem mais me encoraja, mais me engrandece e me faz sentir o melhor de todos os sentimentos.

Aqui dentro é sempre festa quando você está por perto. Esse blog é sempre bonito quando você está por perto.
E eu escolhi ter você sempre por perto.Então aqui vai ser sempre assim: festa e bonito. Aqui dentro de mim e aqui dentro do blog.

Me desculpa por ficar tanto tempo sem escrever num dos maiores presentes que o maior presente da minha vida me deu. Isso não vai mais acontecer.
O blog tava parado, mas a vida não.

Obrigada. Meu hoje, meu presente. Há três anos. Ou oito meses.
Obrigada, por “ler a li”.
Euliali.

Arte maravilhosa do Bfrema

Preto e perto

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Preto perto.
Sempre preto.
Preto parte.
Sempre perto.
Preto.

Ele era preto e doce.
Era nosso e sempre.
Era festa e sono.
Era melhor que gente.

Faz um ano que ele foi. Faz um ano que ele vem.
Todo dia como fazia, em alguma hora a melhor companhia.

 

 

 

Poema: Meu
Imagem: Picasso

Era igual a amar demais.

euliali

 

Sabia desde cedo. Não sabia como, nem porque, mas sabia.

Vinha de dentro, brotava feito um sentimento, saía certo mesmo estando errado.

Não era a melhor do mundo, nem de longe. E ainda faltava muito pra ser a melhor que podia ser. Não era em nada perfeita. Mas era pura e bonita, e isso era um bom começo.

Sentia, e botava pra fora, e ia saindo assim, como se fosse feito dentro dela e nem ela mesma soubesse como era que aquilo tudo acontecia.

E cada vez mais sentia que não podia viver sem, que se não soubesse ou não pudesse fazer seria a pessoa mais infeliz do mundo, que não podia imaginar o que faria de sua vida se não soubesse tirar aquilo de dentro de si e explodir pra fora da forma como fazia.

Era seu amor, sua paixão, seu vício, sua droga, seu combustível, seu ar, seu flutuar. Tipo aqueles amores avassaladores que acontecem por aí. Era quando se sentia forte e quando podia ser quem quisesse, era quando fazia seu mundo parar e quando as horas eram mais bonitas.

Era igual a amar demais.

Também como todo amor e paixão que se prezem, não era só flores. Tinha seus momentos ruins, tristes, difíceis, pesados. Vários. Muitos. Os “nãos”, as críticas, os descasos, as frustrações. Mas no fundo só queria cantar. Só.

E pensar que um dia isso pudesse deixar de acontecer e que as coisas não seriam mais como antes, fazia doer. Doer mesmo, lá no fundo da alma, um aperto agudo e sofrido.

Era como se nada mais fizesse sentido, como se o mundo não tivesse graça, nem cor. Como se tudo fosse em vão e as horas passassem sem motivo.

Que nem quando a gente perde um grande amor.

Igual a amar demais.

Arte: Bfrema

Pedido

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Eu sei que nos últimos anos ela não tem te dado muita bola. Que muitas vezes diz que não acredita em você, que não te dá o valor que merece.

Eu sei.

Mas é que ultimamente ela tem olhado o mundo e o seu coração. O mundo e o seu coração. E tem visto que realmente não sabe usá-lo do jeito certo. Nem o mundo, nem o seu coração.

E tem visto que é sempre por causa da mesma coisa que tudo fica ruim. Sempre pela mesma coisa que rasga, que suja, que troca. Fica ruim pra quem tem muito e quer ainda mais. Fica ruim pra quem não tem nada e nem sabe o que é ter.

Fica ruim pra famílias inteiras, fica ruim pros casais até apaixonados, fica ruim pro emprego decente, fica ruins pros amigos. E é aí que entram as dores. E as surras. E o choro. E o pouco.

Os tapas que o rico dá no rico. Os tapas que o rico dá no pobre. Os tapas que o pobre dá no pobre. Os tapas de quem sobe, os tapas de quem sofre.

Os safanões que quem ama dá no par, e que machuca tanto. Que quem cuida dá na cria, que quem é cuidado dá na mãe, que o irmão soca no outro irmão. E quando você acha que vai ser diferente… não. Não tem como ser diferente. Aqui não. Pelo menos é o que eu ela anda vendo por aí…

E é aí que por vezes fica difícil pra ela acreditar em você. Porque, como pode haver um outro lugar tão bonito… se nós estamos é aqui?

Por causa dele, que ela nunca teve e nunca quis ter. Por causa dele que ela nunca soube usar.

Por causa dele ela queria estar aí. Com você.

Tudo e Nada

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Ela já teve carro importado, barco, moto, prancha, lancha, roupa de grife, casa de campo e não tinha nada. Nada mesmo. Nada.

Futuro. Segurança. Felicidade. Nada.

Teve dor, desprezo, ignorância, mentira, anulação, fingimento, isolamento, espera. E isso era nada e era tudo o que tinha.

Ela já teve Paris, Londres, Barcelona, Roma, Berlim, euros, libras, tips e ainda sim não tinha tudo.

Aí teve um pedido de socorro. E teve tartaruga nos olhos, lombada na estrada, rede, flor no teto, flor no corpo, flor na tampinha, flor no chão. E teve montar móvel de madrugada e passar creme nos pés e descascar como aquela cola branca da infância. E teve um refrão de estrelas, teve conhecer o mundo com os olhos do outro e achar ele lindo. Teve o apoio incondicional no canto, na tinta, no ar, no mar, no sonho, no pé no chão. Teve brigar pela taça preta e vibrar com cada conquista, por menor que ela fosse. Teve até discurso. Teve anel de guardanapo, de palha, de folha. Teve conhecer só pelo olhar. Enxugar lágrimas que duraram uma semana e sorrir maior ainda do que já se sorria, só pra ver o sorriso do outro. Teve almoço de pipoca e teve que aprender a fazer feijão na marra. Teve uma música, duas músicas, três músicas. Teve um quadro, dois quadros, três quadros. Teve bilhete dentro do box, dentro da gaveta, dentro do coração. Teve acordar dançando pela casa e ir dormir escondendo o guarda roupa inteiro do outro no corpo. Teve sentir paz quando tudo era caos. Teve queijos e vinhos no chão da sala. Teve tinta no chão da sala. E do quarto, e no sofá e na estante. Teve montar exposição, teve treinar música pra audição. Tudo em dois. Tudo em dobro. Teve abrir a porta e iluminar a casa com o sorriso de ver seu melhor amigo sentado o sofá. Teve acalmar a calma, a alma, a lama, a cama. Teve sentir mais proteção que o mundo e se sentir uma pessoa melhor a cada dia que era junto.

E aí sim, ela tinha tudo.

Mas ele ainda achava que não tinha nada.
E isso era tudo…

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